Produções com IA misturam estética infantil e roteiros violentos, enquanto cursos prometem transformar a tendência em renda extra
Personagens como abacates, morangos e bananas estão dominando as redes sociais em uma tendência inusitada: as chamadas “novelas de frutas”. Criadas com o uso de inteligência artificial, essas animações curtas vêm acumulando milhões de visualizações em plataformas como TikTok e Instagram, combinando humor, drama e polêmicas em roteiros de até um minuto.
Apesar da aparência lúdica, que remete a desenhos animados, os conteúdos têm chamado atenção por abordar temas pesados, como violência doméstica, traições, gordofobia e relacionamentos abusivos. Especialistas alertam que essa “embalagem infantil” pode atrair crianças e adolescentes, que acabam consumindo mensagens problemáticas sem o devido filtro crítico.
A tendência ganhou força a partir de perfis como o AI.Cinema021, que adaptou formatos populares, como o reality show Love Island, para o universo das frutas. No Brasil, a ideia foi rapidamente tropicalizada, com enredos que lembram programas como Casos de Família, recheados de gírias, barracos e situações exageradas.
Personagens como “Abacatudo”, “Moranguete” e “Bananildo” se tornaram símbolos dessa febre digital, que já ultrapassou o entretenimento e chegou ao marketing. Grandes marcas e até instituições públicas passaram a surfar na onda, criando conteúdos inspirados no formato para engajar o público.
Ao mesmo tempo, o fenômeno abriu espaço para um novo mercado. Plataformas como a Hotmart já oferecem cursos que ensinam a criar esse tipo de conteúdo, com promessas de monetização e “renda extra” por meio de vídeos virais.
No entanto, psicólogos e especialistas em comportamento fazem um alerta importante. Segundo eles, o maior risco está no conteúdo disfarçado de entretenimento leve. As histórias frequentemente normalizam comportamentos agressivos e preconceituosos, sem consequências ou reflexão.
Outro ponto de preocupação é o impacto em jovens. Como muitos usuários ainda estão em fase de formação de valores, esse tipo de conteúdo pode influenciar a forma como enxergam relações e conflitos no dia a dia.
Embora plataformas digitais mantenham diretrizes que limitam o acesso de menores — exigindo idade mínima de 13 anos e removendo conteúdos inadequados —, milhões de vídeos ainda circulam diariamente, dificultando o controle total.
Entre humor, viralização e monetização, as “novelas de frutas” mostram o poder da inteligência artificial na criação de tendências. Mas também levantam um debate urgente: até que ponto o entretenimento digital pode ultrapassar limites e influenciar comportamentos, especialmente entre os mais jovens.



