Cartão de crédito vira símbolo do aperto: BC alerta para avanço do endividamento de milhões de brasileiros

Gabriel Galípolo diz que modalidade, usada por 101 milhões de pessoas, tem sido tratada como complemento de renda; governo também demonstra preocupação com o peso das dívidas no orçamento das famílias.

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta quinta-feira (26) que o cartão de crédito segue no centro do endividamento das famílias brasileiras e acendeu um alerta para o uso recorrente de linhas que deveriam ser emergenciais. Segundo ele, 101 milhões de pessoas utilizam cartão de crédito no país, em um cenário em que parte dos consumidores passou a recorrer ao crédito não apenas em momentos excepcionais, mas como extensão da própria renda.

Na avaliação de Galípolo, o problema vai além do acesso ao crédito e exige uma discussão estrutural sobre alternativas mais adequadas para o consumidor. O chefe do BC defendeu a criação de arranjos financeiros mais saudáveis e alertou que uma simples limitação artificial dos juros pode reduzir a oferta de crédito e ampliar o desconforto de quem já depende desse tipo de operação para fechar as contas do mês.

Os números ajudam a explicar a gravidade do quadro. Em janeiro, o juro médio do rotativo do cartão de crédito ficou em 424,5% ao ano, mantendo a modalidade entre as mais caras do mercado financeiro brasileiro. Mesmo com recuo em relação ao mês anterior, o patamar continua extremamente elevado e reforça a pressão sobre famílias que não conseguem quitar o valor integral da fatura.

O alerta do Banco Central ocorre em meio a um ambiente de endividamento ainda alto no país. Em seu Relatório de Política Monetária de dezembro de 2025, o BC já havia apontado que os indicadores de endividamento e comprometimento de renda das famílias permaneciam em níveis elevados, mesmo com a resiliência do mercado de trabalho e a expansão de novas modalidades de crédito.

A preocupação também chegou ao Palácio do Planalto. Em agenda nesta quinta-feira em Anápolis, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que pediu ao ministro da Fazenda uma solução para facilitar o pagamento das dívidas das pessoas, sinalizando que o governo acompanha com atenção o impacto do crédito caro sobre o orçamento popular.

No diagnóstico apresentado por Galípolo, a escalada recente da inflação também ajudou a empurrar mais brasileiros para o crédito. Ele citou uma sequência de choques econômicos internacionais nos últimos anos, como a pandemia, a guerra na Ucrânia e tensões geopolíticas mais recentes, como fatores que pressionaram preços e reduziram o poder de compra das famílias. Nesse contexto, o cartão passou a ser usado por muitos como válvula de escape diante da perda de renda real.

O recado do Banco Central é direto: usar o rotativo como complemento permanente de renda pode aprofundar ainda mais o desequilíbrio financeiro das famílias. A discussão agora, tanto no BC quanto no governo, gira em torno de como ampliar o acesso a linhas menos agressivas e evitar que o crédito mais caro do sistema continue sendo a porta de entrada para o superendividamento.